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Procura-se Um Herói

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Peguei meu sanduíche e a água gaseificada e sentei em uma mesa do lado de fora da lanchonete. Sim, sozinha. Mas quer saber? Um pouco de sossego cai bem. Só eu e a brisa fresca. Uma tarde saborosa e meditativa no campus do Colégio Galilei.

– Precisa ter superpoderes para abrir isso aqui – resmunguei alto quando não consegui abrir a garrafa. Não tinha ninguém em volta, exceto uma criança correndo feito uma louca ao redor das mesas.

– Então chegou a pessoa certa! – gritou o garotinho, correndo na minha direção. Foi quando notei que ele, ironicamente, estava vestido de super-herói. Não contive o riso.

– Olá, Homem-Aranha! – eu disse. – Pode ajudar uma garota indefesa? – Estendi a garrafa para ele.

– Claro! – Ele tentou abrir a água. Acompanhei seu rosto franzindo e ficando vermelho por causa da força. Ri, sabendo que ele não teria sucesso, já que eu não podia ser mais fraca do que um menino de sete anos.

Por fim ele desistiu, mas não me devolveu a garrafa; ao invés disso, correu subitamente para longe.

– Ei! – chamei, com medo de ter sido furtada, mas então vi que ele só estava levando a garrafa para outra pessoa abrir, um garoto mais velho que se recostava ao balcão de pagamento.

E meu queixo caiu. Porque aquele era o garoto do terceiro ano de quem eu estava afim em segredo e nem sabia da minha existência.

Observei o herói mirim explicar a situação para o garoto. Este olhou bem na minha direção com um sorriso de diversão e abriu a garrafa sem a menor dificuldade. Isso me deixou ainda mais vermelha do que eu já estava.

O garotinho voltou saltitante para minha mesa.

– Meu irmão conseguiu abrir! Ele tem uma superforça!

Lá do balcão, o garoto deu de ombros, como se dissesse “não foi nada”.

– É seu irmão? – perguntei interessada.

– É sim!

– Então – olhei para o menino, meus dedos trabalhando para abrir um relutante sachê. – Sobre o seu irmão mais velho…

Mas não consegui arrancar algumas informações do Mini-Homem-Aranha, porque ele viu minha dificuldade com o ketchup e o arrancou da minha mão.

– Deixa comigo! – E saiu correndo outra vez.

Eu estava tão corada quanto o ketchup quando o garotinho voltou à mesa. E desta vez o irmão veio junto, entregar-me pessoalmente a embalagem aberta.

Olhei para cima, para o rosto perfeito que se moldava num espetacular sorriso.

– Oi – disse ele, entregando-me o ketchup. – Agora eu queria que VOCÊ abrisse algo. – E passou-me um envelope bonito. – Quero que vá comigo ao casamento da minha irmã.

– Vai dar um convite assim, para qualquer pessoa? – perguntei chocada.

– Você não é qualquer pessoa. É uma donzela esperando o herói salvá-la da sua profunda solidão – ele disse sorrindo, e eu sorri também.

Os dois me fizeram companhia o resto do almoço. Com o corajoso Homem-Aranha ao meu lado e seu heroico e misterioso irmão mais velho, não tive mais problemas para abrir nada. Nem mesmo meu coração.

Paula Ottoni, 2010



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