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O Lado Escuro do Mar

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Parte I:

Malditos peixes. Essa era a coisa mais agradável que eu conseguia dizer a respeito daquele pagamento inapropriado — o único que eu tinha obtido no dia. Com lágrimas de desgosto e aflição escorrendo pelo rosto, carregando aquela estúpida cesta malcheirosa, os panos não vendidos na bolsa pendendo em meu ombro, caminhei para o que poderia ser minha última esperança.

Peguei a loja de Câmbio aberta por pouco, Marcel, o assistente do Senhor Montan, segurando a porta para que eu fosse a última a passar. Desabei a cesta pesada no balcão, tentando respirar, todos os orifícios do meu rosto cheios de água do choro que eu não conseguia controlar. O Senhor Montan colocou de volta na cesta alguns peixes que pularam para fora na minha pouco delicada chegada e franziu o nariz.

— Quanto o senhor me dá por isso? — não perdi tempo.

Ele coçou o queixo redondo como se estivesse pensando, mas o Senhor Montan era o tipo de pessoa que sempre tinha todos os cálculos já muito bem resolvidos.

— Hum… Creio que não mais que cinco kutles.

— CINCO KUTLES? — Afastei-me da bancada e pus as mãos na testa. — Por favor, Senhor Montan, o senhor tem que me dar mais do que isso…

— A senhorita está bem? — perguntou Marcel, e eu não aguentei e desabei na cadeira de espera. É claro que eu não estava bem.
Marcel foi encher um copo com água enquanto continuei argumentando com o dono do Câmbio.

— E que tal um empréstimo? Ou posso lhe dar a minha cama… quem sabe nossa mesa, ou as cortinas…? Olha, tenho todo um enxoval aqui! — Levantei a bolsa com os panos que não vendi no dia e, verdade seja dita, no mês inteiro.

— A senhorita sabe que não é assim que funciona aqui. Sinto muito. Eu já estou sendo legal de oferecer cinco kutles por alguns peixes desses. Não tenho interesse em sua mobília ou seu enxoval. As pessoas parecem esquecer que meu negócio principal é trocar moedas…

— O senhor não sabe de ninguém que compraria qualquer dessas coisas?

Marcel me passou o copo com água, que peguei trêmula. O Senhor Montan sorriu sem humor.

— Por um preço justo? Ninguém. Aqui quem tem dinheiro não quer saber das nossas porcarias…

Como eu odiava aquele lugar! E tudo estava prestes a ficar ainda pior, se eu não conseguisse os malditos quarenta kutles até o anoitecer.

Escondi o rosto nas mãos, pensando no que fazer. Eu não podia desistir ainda.

— Ela piorou, Agnes? — perguntou Marcel, por um segundo parecendo esquecer que estava na loja, e não conversando comigo como quando nos cruzávamos na fila do poço de água.

Assenti com a cabeça, respondendo a pergunta dele. Decidi então levantar e ir fazer minha última parada enquanto eu tinha tempo. Passei o copo de água vazio a Marcel com um “obrigada”, peguei a cesta com peixes e saí sem nem desejar boa noite. O que tinha de boa?

Cruzei o centro, os comerciantes da vila todos se preparando para voltar às suas casas. Invejei vários deles por terem vendido o que eu gostaria de ter conseguido. Naquele dia, não era apenas uma questão de honra. Era uma questão de vida.

Entrei na loja Encantos & Sonhos e disparei até o dono, Salizar, o Encantador. Coloquei os peixes na bancada e ele olhou para mim como se eu tivesse lhe dito um insulto. Seu rosto velho e cheio de marcas de desastres mágicos se enrugava na típica carranca do homem amargo e solitário. Seus olhos cor de vidro cinzento me encararam com dureza e ele coçou o bigode branco. As inúmeras poções mágicas cintilavam nas altas vitrines — poção do amor, poção da beleza, poção para nascer cabelo, para curar dor de dente… Eu só precisava de uma, apenas uma!

— Preciso da Cura Líquida — eu disse ofegante.

— Como pretende pagar? — ele perguntou sem nem se mexer.

— Por favor, o senhor tem que aceitar os meus peixes.

Ele olhou para a bancada, onde meu miserável pagamento do dia estava, e fez o que eu nunca imaginei que veria aquele homem fazendo.

Ele gargalhou. Tão alto que meus ouvidos gritaram.

Salizar nunca foi uma pessoa simpática, na verdade sempre pareceu me detestar — ele parecia detestar muita gente pobre. Ele ter rido de mim foi a pior coisa que me aconteceu no dia. Eu sabia que o pior mesmo estava por vir, mas esse era o som do início. Essa humilhação marcava o começo do meu triste futuro.

— Ela está morrendo! Por favor, me deixe levar o remédio! — continuei me deixando humilhar. Eu sempre havia conseguido vender o suficiente para comprar as outras fórmulas para mantê-la viva. Mas desta vez aquelas poções fracas não eram o bastante. Salizar mesmo havia dito para mim, mas ele, como todos naquela cidade, não se importava. Pessoas morriam todos os dias.

— Você não conseguiria nem a pior das poções com esse pagamento!

Ao voltar para casa com aqueles peixes, minha bolsa com os panos restantes e nada mais, sentei na cama e chorei como nunca. Quando me recuperei um pouco, fui até o leito dela e a abracei. Seus olhos só abriam um pouco e a respiração era lenta. Havia tempo que não nos conectávamos como mãe e filha, mas eu ainda conseguia me ver nela, em seus cabelos castanhos, nos grandes olhos escuros, no formato da boca…

Beijei sua testa pálida e deitei minha cabeça no peito dela, ouvindo seus batimentos enquanto eu ainda podia.

— Eu falhei, mãe… Me perdoa.

Ela não conseguia falar, então segurou minha mão. Quando o sol terminou de se pôr, ela me deixou.

Naquela noite, eu tive um acesso de raiva e quebrei um monte de coisas. Então saí para o ar frio, deitei na grama e olhei para o céu, prometendo que eu mudaria. Estava cansada daquela vida, não podia aguentar mais contar as moedas para sobreviver.

Eu morava em Rasminn, a cidade com mais pessoas fazendo coisas ilegais que se poderia encontrar. Apenas os tolos viviam na miséria, escravos de sua ingenuidade e medo. Ali grandes ladrões se refugiavam e usufruíam de seu lucro. Eu poderia começar pequeno, agora que não tinha nada a perder. E começaria com quem não se importava mesmo com os problemas dos outros. Então por que eu deveria me importar com eles?

Assim que o dia amanheceu, saí para a cidade, sem os peixes e sem as costuras, apenas pronta para dar início ao meu plano.

 

Continua…

O conto inicialmente foi publicado em partes, uma por semana, no Wattpad (clique AQUI para ler).

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